Nicola Conte

Nicola Conte Encontra O Jazz Gospel De Gregory Porter

Esta edição do Jazzmasters funciona como um roteiro que começa no funk britânico sofisticado, passa pelo groove francês em alta rotação, cruza o eixo Italo-soul e pousa na elegância maximalista de Nicola Conte com Gregory Porter, antes de voltar às raízes do southern soul de Bill Brown. É um programa com a cabeça do nosso Mestre Chico Aleixo, começando o ano com ar crítico, coração de colecionador de vinil e ouvidos treinados para conectar passado, presente e futuro do groove.

Foto: Malka Family

O início do set é um manifesto de sofisticação. Chaz Jankel, veterano de mais de cinco décadas e cérebro harmônico por trás de Ian Dury & The Blockheads, chega em “Water” reafirmando o posto de arquiteto do pop sofisticado e do funk britânico de alto QI. A faixa encaixa o Jazzmasters num lugar claro: música dançante, mas escrita por um arranjador. Em seguida, DD! – Keeps On Shining mantém o foco na pista, mas pelo viés da cultura dos edits: é disco e boogie filtrados pela lente da Nu‑Disco, onde bateria orgânica, Rhodes e synths do produtor Offminor atualizam a lógica do sample obscuro e do loop hipnótico, pedra fundamental tanto do hip hop quanto da club culture moderna. O primeiro grande ponto de virada vem com Malka Family – Petit Quelque Chose: o coletivo francês lembra por que foi crucial para solidificar um groove europeu que bebeu em Parliament/Funkadelic e Earth, Wind & Fire, mas respondeu com irreverência francesa, metais superpovoados e energia de mini‑big band funk. Aqui, o programa crava uma posição: o futuro do funk também fala francês — e fala alto.

Foto: Derane Obika

Dai em diante, o Jazzmasters abre espaço para a engenharia fina entre house, soul e nu‑disco europeia. Lost In – Look Around, com Arnold Jarvis e Obi Franky, é uma estreia britânica madura pela Pleased As Punch: vocais de tradição soul encontram produção que equilibra textura orgânica e design eletrônico, ecoando o diálogo permanente entre R&B moderno e deep house contemporâneo. A seguir, Go.Soul.Map. – Right Of Me (On My Dance Side Version) confirma a Itália como bastião histórico do acid jazz e do soulful house: o projeto do siciliano Salvo “Dub” Bruno, vindo do álbum de estreia “Peaceful Sound For Broken Minds”, mistura graves suaves, teclados espaciais e uma escrita pop‑soul que se move entre mainstream e underground. A performance de Derane Obika dá densidade emocional à pista, com letras de introspecção espiritual que contrastam com o clima nu‑disco. Fechando o bloco, Alexander IV – Take My Heart, do produtor holandês Joris Feiertag com o nova‑iorquino Josef Scott, é lançado pelo selo Sidekick Music e aparece no EP “Bloom” como uma síntese de broken beat, jazz‑funk e disco de baixão dominante. O resultado soa como um lado B perdido da Motown remixado em 2025: compacto, melódico e com storytelling vocal em primeiro plano.

Foto: Roy Davis Jr.

No segundo set, o programa aprofunda a narrativa em torno da herança funk e house. Matt Johnson – Is It Too Late, parte do álbum “Warrior Princess”, lançado em 2025 pelo selo Naïve, coloca o lendário tecladista do Jamiroquai no centro do palco com um single que mira diretamente o coração do funk setentista: backing vocals cheios de Soul, baixo dominante e solos de sintetizador com timbre vintage. O histórico de colaborações com nomes como Jeff Lorber e Cory Wong reforça a conexão do disco com o universo do jazz‑funk virtuoso. Na sequência, Latroit feat. Nick Clow – Gabrielle reposiciona um clássico do house espiritual: se “Gabriel/Gabrielle” de Roy Davis Jr. e Peven Everett, de 1996, é cânone do house de Chicago com trompete e vocais carregados de soul, a versão de Latroit injeta precisão de estúdio de Los Angeles e voz marcada pelo pedigree pop, via backing vocal dos Pet Shop Boys. O próprio Roy Davis Jr. – Michael (Radio Edit), de 1999, funciona quase como nota de rodapé autoral: um tributo a Michael Jackson que lê o Rei do Pop pela lente da house de Chicago e do UK Garage, consolidando Davis Jr. como ponte declarada entre as cenas americana e britânica.

Foto: Gregory Porter

Na reta final, o Jazzmasters aposta em contrastes bem calculados. Touch Sensitive – A Team Spirit, do álbum “In Paradise”, reafirma Michael Di Francesco como um dos embaixadores do baixo e do synth funk australiano, misturando Italo‑disco, piano house e um clima de hino de festival de verão. Mas é em Nicola Conte feat. Gregory Porter – Do You Feel Like I Feel que o programa encontra seu ápice de elegância: o produtor e guitarrista italiano, conhecido por seus discos de jazz lounge e nu‑jazz para selos como Schema, arma um cenário harmônico de jazz europeu refinado, cheio de cordas, sopros e harmonias modais, para a voz de barítono mais influente do jazz do século XXI. Porter, vindo de uma trajetória de Grammys e álbuns que recolocaram o vocal jazz no mainstream, transforma a faixa num standard instantâneo, onde gospel, soul e jazz se encontram com naturalidade radiofônica. O fechamento com Bill Brown & The Soul Injection – Love Under The Apple Tree, resgatado em compilação da P‑Vine que reúne singles setentistas sob o nome Bill Brown & The Soul Injection, devolve o ouvinte à textura analógica do southern soul e do funk cru: bateria seca, arranjos econômicos e vocais ricos, herdeiros diretos da escola Stax.

Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.

Touch Sensitive é o projeto solo de Michael Di Francesco , um produtor e músico australiano de Sydney, também conhecido como membro da banda Van She. É um virtuoso do baixo e dos sintetizadores. É a fusão do Italo-Disco com o Indie Dance. Aqui ele apresenta “A Team Spirit”, anunciando seu segundo álbum, “In Paradise”. Vocais de Thandi Phoenix, KYE e Kyva

O vídeo acompanha a energia da faixa com uma estética vintage, vibrante e descomplicada, reforçando a fusão entre nostalgia disco e sensibilidade pop contemporânea.

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