No programa desta semana, edição 1283, o Jazzmasters leva nosso ouvinte por uma viagem que começa na memória afetiva da dance music e termina no house contemporâneo, passando por clássicos e relíquias revisitados, e pela presença poderosa de duas mulheres que definiram gerações inteiras: Erykah Badu e Mary J. Blige. É um programa que costura décadas, uns 40 anos no mínimo de soul, funk, disco e nu-jazz com a leveza de quem entende que a pista de dança carrega também um arquivo emocional.

A abertura com Ben Liebrand & Timmy Thomas, seguida por D-Train e New Jersey Connection, cria aquele clima irresistível de “primeira luz na cabine”, quando o DJ ainda está organizando o astral da noite. Repare. Liebrand traz Timmy Thomas de volta com astúcia e respeito, house com um sopro de nu-disco elegante e um toque de nostalgia. D-Train chega com sua força imbatível, lembrando por que aquele groove pós-disco virou referência para tudo que veio depois: um hino que continua soando moderno. E “Love Don’t Come Easy”, no edit conciso, empurra a vibe adiante com aquele sabor de disco-funk novaiorquino puro, carinhosamente reavivado sem perder o charme original. Um início que mira no passado, mas pulsa no agora.

Na sequência o Jazzmasters mira para um território mais emocional. Claes Rosen pega a suavidade de Marvin Gaye e a transporta para uma dimensão house de contemplação, que ficou anos guardado como “bootleg”, um remake que não tenta competir, mas dialogar com a memória. Jared Grant aparece radiante, com aquele neo-soul e cheio de personalidade, mostrando porque é um dos nomes mais quentes da nova escola europeia. E Ben Jamin, com “Destiny”, desliza entre a elegância da disco e a melancolia sweet funk que só ele sabe fazer: dançante, sedutora e com aquela pontinha de saudade que sempre funciona.

Quando o programa entra no território de Erykah Badu e Mary J. Blige, tudo muda de temperatura — é como se o ar ficasse mais denso, respeito máximo. O remix de Badu brinca com memórias do R&B dos anos 2000 e com o espírito livre do neo-soul, levando o sample do Usher para uma órbita própria, mais introspectiva, quase astral. A sequência encontra eco direto em Mary J. Blige, que chega madura, firme, profunda, trazendo tudo aquilo que ela aprendeu transformando dor em música. As duas, juntas, criam um diálogo raro: vulnerabilidade elevada à arte. A ponte perfeita para a retomada jazz-house de Nathan Haines, com Marlena Shaw brilhando no remix de Fouk — elegante, musical, cheio de vida. Um bloco que não só emociona, mas afirma duas eras, duas linguagens, dois legados.

O final do programa foca no novo, e olha para frente com confiança. Løvdal entrega um “In Love Baby” que parece feito sob medida para playlists leves, frescas, com groove escandinavo no ponto certo. SPENSR, trazendo sua mistura de french-house com rap melódico, injeta juventude e eletricidade; é moderno sem ser ansioso, pop sem vender a alma. E WheelUP, com Steven Bamidele, encerra com classe: broken beat, disco, neo-soul, tudo costurado com aquele requinte britânico que sempre encontra novas formas de reinventar o groove. “Take My Word” é um fechamento iluminado.
No fim, um Jazzmasters que é ao mesmo tempo memória e descoberta, nostalgia e novidade, pista de dança e confessional, papo e tendências, exatamente como os grandes programas de rádio devem ser.
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” You Ain’t the Only One ” é destaque nesta edição. Música da cantora americana Mary J. Blige composta em parceria com Patrick “Pat” Kelly, Jezus Rose e Angelo “Doc” Velasquez para seu décimo quinto álbum de estúdio, Gratitude (2024). Sobre o tema, ela comenta: “Eu ouço muitas histórias que meus fãs me contam. Eu já passei por muita coisa, mas às vezes você ouve as histórias de outras pessoas e pensa: ‘Nossa, eu só estou reclamando’, porque as histórias delas são piores que as suas. Todo mundo tem algo com que está lidando e que está sofrendo. O single basicamente diz: ‘Você não está sozinho. Você não é o único aqui lidando com a vida. A vida não é só para você’.”
Recado dado!!!